segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Poema ácido



Acordei na noite ensolarada
Preso por uma chuva cruel
Que me fechava as janelas
Mantendo-me acalorado
Gotejando abundante suor
Gotas misturadas às lágrimas
Sem haver sentimento algum
A não ser a irritação no olhar
Provocada pelo suor no rosto
A irritação no corpo ensopado
Sem marcas de amor ou paixão

Adormeci a manhã enluarada
Sombreada pelo mal tempo
E também pelo pouco dormir
Mantendo-me ainda acalorado
Irritado por aquela noite louca
Farta de sanidades e vazios
A paixão, com calor sem amor
Quase descontrolando a manhã
Inibindo bons dias e sorrisos
Cansaço das mesmas coisas

Levantei-me ainda que imóvel
Tornei-me um olhar úmido
Um colar de pérolas falsas
Contando nos dedos horas
Como no ato de um terço
Um terço do dia vencido
Eu vencido pelo cansaço
Cansado de estar ali parado
Me movendo deitado e só
Com as formas da água

Água e sabor de suor do calor
Água, chuva, janelas fechadas
Água, lágrimas, olhos cansados
Então me levanto cambaleante
Indo na direção da água fria
Chove o chuveiro e lágrimas
Lágrimas do olhar ensaboado
Lavando e levando o calor
Levando a ausência pura
Da mais pura ausência de dor

Saio então daquele estado
Me descobrindo de estar
Estar ensaboado, acalorado
Tocado pelo calor da ausência
Pela presença da inexistência
Ou da inexistente essência
Presente des-presente em mim
Crua e dura realidade do ser
Na presença doce de estar só
E sabendo a exata hora de

Hora de me levantar e ir
Hora de me enxugar e sorrir
Hora de me vestir e me ungir
Ungir-me de muitos perfumes
Pasta de dente, refrescante bucal
Desodorante anti-transpirante
Perfume na dosagem certa
Me maquiando, iludindo-me
No carro com ar-condicionado
Fora do mundo real de calor

Nesta metáfora, neste paralelo
Nesta analogia extensa e louca
Que pensamos viver livremente

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