segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Ser livre


Te quero, me quero e quero
Não espero que me esperes
Não espere que eu te espere
Somos livres para escolher
Somos simples para querer
Pois queremos em nós mesmos
Sermos livres para querer
Queremos ser livres assim
Sem a cor ou a dor da espera
Sem desilusão ou esperança
Simplesmente queremos ser
Claramente também querer ter
Não do jeito que eu quero
Não do jeito que tu queres
Mas do jeito que te quero
Sim, do jeito que me queres
Porque te quero e me quero
Em recíproca verdadeira
E não espere que eu te espere
Pois não espero que me esperes

Poema ácido



Acordei na noite ensolarada
Preso por uma chuva cruel
Que me fechava as janelas
Mantendo-me acalorado
Gotejando abundante suor
Gotas misturadas às lágrimas
Sem haver sentimento algum
A não ser a irritação no olhar
Provocada pelo suor no rosto
A irritação no corpo ensopado
Sem marcas de amor ou paixão

Adormeci a manhã enluarada
Sombreada pelo mal tempo
E também pelo pouco dormir
Mantendo-me ainda acalorado
Irritado por aquela noite louca
Farta de sanidades e vazios
A paixão, com calor sem amor
Quase descontrolando a manhã
Inibindo bons dias e sorrisos
Cansaço das mesmas coisas

Levantei-me ainda que imóvel
Tornei-me um olhar úmido
Um colar de pérolas falsas
Contando nos dedos horas
Como no ato de um terço
Um terço do dia vencido
Eu vencido pelo cansaço
Cansado de estar ali parado
Me movendo deitado e só
Com as formas da água

Água e sabor de suor do calor
Água, chuva, janelas fechadas
Água, lágrimas, olhos cansados
Então me levanto cambaleante
Indo na direção da água fria
Chove o chuveiro e lágrimas
Lágrimas do olhar ensaboado
Lavando e levando o calor
Levando a ausência pura
Da mais pura ausência de dor

Saio então daquele estado
Me descobrindo de estar
Estar ensaboado, acalorado
Tocado pelo calor da ausência
Pela presença da inexistência
Ou da inexistente essência
Presente des-presente em mim
Crua e dura realidade do ser
Na presença doce de estar só
E sabendo a exata hora de

Hora de me levantar e ir
Hora de me enxugar e sorrir
Hora de me vestir e me ungir
Ungir-me de muitos perfumes
Pasta de dente, refrescante bucal
Desodorante anti-transpirante
Perfume na dosagem certa
Me maquiando, iludindo-me
No carro com ar-condicionado
Fora do mundo real de calor

Nesta metáfora, neste paralelo
Nesta analogia extensa e louca
Que pensamos viver livremente

sábado, 11 de outubro de 2014

ETERNO PASSAGEIRO



Correr o mundo a dentro e senti-lo por fora
Ouvir as canções de hoje e as de outrora
Olhar e tocar sem machucar as flores da manhã
Sentir a brisa que é dela mesma não é de ninguém 
Mesmo quando tem cheiro de mar, mato ou hortelã

Somos então, esta brisa rápida e passageira
Imperceptível para os muito agasalhados
Por vezes tão dolorosa para os lesionados
Brisa, brasa, brasão de nossa história
Mesmo em conflito de guerra, calma de paz

Vivemos assim, a história de dentro dela
E ela em nós como brisa ou vendaval
Somos árvore florescendo em projeto
Somos aparentemente quase tudo
Mensuravelmente, somos quase nada

Então o mundo corre dentro de nós
E fazemos canções hoje do outrora
Canções da brasa, da brisa abrasada
Somos aparentemente quase nada
Mensuravelmente, somos isso tudo 

SER UM



Pode ser um sim, pode ser um não
Pode ser qualquer coisa que quiser
Pode ser ribeira ou uma ribanceira
Nada pode estragar meu bem estar
Estou bem comigo, sinto liberdade
Sejam coisas leves, densas nuvens
Tudo é fugaz, full gaz, passageiro

Vivenciar, experienciar e só ser
Desiludir das efêmeras ilusões
Construindo um mundo solúvel
Evitando concretos concretos
Não aos obstáculos e espetáculos
Viver a vida simples e comum
Ser feliz em si, sendo só um

O VENTO



Corra vento, me faça um favor
Diga para quem ficou no passado
Que aquilo era dor sem cor de amor
Diga que sozinho eu vivo feliz
Que não precisa me esperar
Vim e já me instalei neste presente
Não comprei passagem pra voltar

Mas não perca seu tempo procurando
Se não a encontrar na primeira tentativa
Volte logo e me traga um silêncio
Uma porção de ausência saudável
Traga também meu livro do Rubem
Porque lá ele não tem nenhum valor
Vou ler novamente que dor é pérola

Mas saiba que não é preciso ir
Não precisa me fazer este favor
Porque na verdade, faço versos
E eles voam em muitas direções
Levando e lavando palavras vãs
Fique por aqui mesmo e viva
Me espalhe as folhas que juntei