sábado, 28 de junho de 2014

Não tenho tempo para o tempo



Desprezei os múltiplos, perdi os minutos
Desfiz-me das horas, vivo o momento
Crendo o óbvio, vivo seriamente o real
Aquilo que efetivamente tenho em mim
Ofertando a dádiva que chamam vida
A mim e a você que está mais perto

Fui entendendo a alegre condição do hoje
Construindo um novo, não por memória
Sem o desejo coletivo do que chamo outro
Palpei o real, o momento que tenho aqui
E des-coberto que não tenho o amanhã
Nem mesmo o hoje, se dito em horas e minutos

Toquei então em papeis antigos e amarelos
Coisas que hoje eu sou, outras que nunca fui
Certidões e certificados do fugaz, chamado amanhã
Full gás, etereamente concreta ilusão do tudo
Me enxergando nada além do agora em mim
Porque viver para aquilo que não está mais?

Acordei do sonho terrível do tempo, das horas
Descansei no pesadelo nobre do estar aqui
Na certeza sublime de que não existe amanhã
Sorri as lágrimas dos que chegam a vencer
Enxuguei a tola esperança de que vou chegar
Tenho o meu hoje para viver como quiser

quinta-feira, 26 de junho de 2014

A ESTAÇÂO


A cidade vazia, segura, repleta de fantasmas
Almas com medo de tudo, do medo de nada
A simples ilusão passageira da passagem do trem
Desperta o horror da presença humana ali

Mas o trem passou sem parar, sequer apitou
Rasgou a estação sem dar sinal de vida
Rapidamente distanciou-se, vazou, zuniu
E naquela certeza de vazio, do nada presente

Sumiu também o silêncio quando o cão latiu
E o gato, de forma sublime, subiu no telhado
Os pássaros revoaram cantantes coloridamente
E a terna criança surgiu em fraldas com esperança




LUA e SOL


A lua, com aquela luz que nem é sua, me iluminou
Iluminou o meu, o teu e todos os outros olhares ali
Aquela luz do sol, que quente me impede o olhar
Na lua, a tal da luz do sol convida-nos ao amar
Alguns fazem versos, outros beijam e abraçam
Eu abraço e faço versos, beijo e faço versos
Abraso e faço versos, descanso e sonho versos
E a lua com aquela luz do sol, ausente do meu olhar
Parada e móvel, nem quer saber de mim, simplesmente sai

Acordo então com o sol ardendo, ainda ardente em mim
Era então a lua a me encantar com seu reflexo do sol
Do sol que me queima, me incomoda, ao qual digo não
E não me iludo, pois não é ilusão, só gosto de parte do sol
E não quero que ele me falte com sua força de aquecer
Seu mágico casamento com as plantas fotossintéticas
Mas dele, dele todo, com todo aquele seu calor tremendo
Dele, da exata forma como ele é, dele eu não gosto não
Por isto eu entendo ser possível gostar e não gostar de alguém.

Ser só



Não lamento o meu caminho, eu vivo só
Eu vivo só sem sólida dor, sem solidão
Eu sou só quando caminho meus caminhos
Mesmo quando estou nos teus e a te olhar
Ainda assim eu vivo só, dentro em mim
Na minha sólida visão de ti, eu solitário ali

E vivendo dia após dia, só reparando o a
Vivendo a desvanecente sólida solidão
Dentro de casa, na rua ou em bares cheios
Deitado ou caminhando na avenida nua
Na rua, com um milhão de solitários
Que procuram com espero ou desespero o z

E assim vou vendo aquela primavera florida
E tantas outras primas e primos desfolhados
Pelo anseio de não viverem, só viverem só
Basta-me então um q, se não houver, que seja c
Eu tenho tempo, muito tempo para viver só
Só viver, só comigo, só contigo, só com o mar

Mar, amor, amar sem amarrar.


quarta-feira, 25 de junho de 2014

O VENTO



Gemi o gemido profundo da corda que amarra a nau
Tensionado pelas amarras que balançam o porto, o cais
Pressionado pela maré vazante, pelo vento continuo
Criado pelas coisas em que descri e descrevo aqui

Gemi a dor do parto daquilo que em mim quer nascer
Pressionado pelo tempo da eclosão que chegou
Tensionado pela forma como virá e no que vai virar
Criado dos temores, agora quase liberto daquela dor

Gemi então o ápice do prazer de tornar-me a mim mesmo
Retornando em mim a mesma fúria fria, alegria e ternura
Ocasionando aquela "cigania", aquele dia-a-dia pleno
De uma vida sem anestesia, aceitando em mim a dor do amor

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Passando


Tempero o tempo
Com tempo e têmpera
tento moldar o tempo
Sem molde ou tempero
Com têmpera tento
mas não tempero o tempo
Com molde ou têmpera

Então eu tenho tempo
E ao mesmo tempo
Eu não tenho tempo
Para pensar em molde
Que molde o tempo
Ou sequer tempero
Que tempere o tempo

Porque o tempo é senhor
Para quem se faz servo
Mas não se faz servo
De quem pensa ser senhor
Porque o tempo dá voltas
Sem que ele mesmo volte

Porque o tempo
Durante todo tempo
Não quer ser servo
Não quer ser senhor
O tempo não quer nada
O tempo só quer passar
Seja para o servo ou para o senhor.

O vazio


Alta madrugada, tudo e nada
Tudo se foi, nada ficou
Só eu aqui e fico pensando
Que a vida a limpo é passada
Apagando-se o passado
Passando a limpo o pesado
Valorizando o que é bom
Compreendendo o que não é

Alta madrugada, tudo ou nada
Nada se foi, tudo ficou
Eu só aqui, pesando se eu
No passado tive uma vida limpa
Se estou pagando o passado
Limpando as manchas
Dos valores diversos
Das palavras nos versos

Alta madrugada
Tudo ou nada, tudo e nada, tudo é nada

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Questão de ótica


Iluda-se, iluda-me
Porque iludir é sonhar
Querer o sonho impossível
Fingir querer o possível
Iluda-me, iluda-se
Sonhando  alto demais
Sem querer esforço ou dor
Brinque de querer e fazer
Lúdica alusão ao real
Realidade única e pessoal
Iluda-se, porque quem se ilude
Inunda-se de sonhos impossíveis
Impossíveis sonhos reais

A gota


Meu olhar lacrimoso esfumaçado
De fumaça branca e verde-azul
De lágrimas incolores e translúcidas
Como todas as lágrimas são
Lágrimas de alegria da vitória que veio
De frustração por aquilo que não vejo
Olhar, lágrima, sorriso, alegria, sol
Frio, chuva, solidão e a paz que chegou
Lágrima mentida, fingida, fugida de mim
Lágrima do bobo, do bebê, do boto
Lágrima no espelho, caída no chão
Escorrendo no rosto, rasgando o coração
Lágrima, alegria, lástima, companhia, solidão