quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A ESTRADA DO AMOR


No mundo de in-certezas e in-seguranças que criamos
Aprendemos desde bem cedo um prazer por possuir
E à medida que vamos crescendo sem nos desenvolver
Vamos então ficando apertados no sentimento de posse
A exclusividade que requeremos tem em si valor próprio
Cada um, sem forma ou acerto, escolhe para si o que cobrar
E nos des-cobrimos não propriamente no medo de perder
Mas fundamentalmente o grande medo de perder para o outro
E isto, por ser uma forma estranha ao sentimento de amor
Destrói relações, fere formas de afeto, dilacera o coração
E somos surpreendidos pela estranheza no olhar do outro
Daquele que nos admirava e achava encantador o que recebia
Nos encontramos com o lado obscuro e agressivo do medo
Do temor de ter sido comparado, trocado por outro, outra
As palavras de doce sabor se transformam em duro rancor
Acordamos então em meio ao pesadelo do que aprendemos
Que o amor é uma estrada de mão dupla, de reciprocidade
E em meio ao questionamento, pode ser que descubramos
Que entendamos que não é, não é estrada de mão dupla
O amor é estrada de mão única, de um só sentido
Só tem sentido quando todos caminhamos para lá
Na direção de encontrar sem medo, palavras trocadas
Mãos enlaçadas, sorrisos e olhares que nos fortalecem
Corpos suados pelo co-labor dos objetivos comuns
O trabalho e o conjunto de corpos suados pelo amor
Nas formas de casais, de pais e avós e irmãos diversos
Então escolhemos e tratamos bem a quem amamos
De mãos dadas ou não, com beijos ou sem
Vamos sem medo caminhando na mesma direção
Caminhando com todo sentido no mesmo sentido

domingo, 22 de setembro de 2013

POETIZAR


Poemas para que? Se vivo com você
Se sinto tanto assim, você junto de mim
E como falarei das coisas que sonhei?
Se só sonho teu corpo junto ao meu.
Mas tudo bem, eu quero ser romântico
Então faço versos pensando em você
Passo em lugares públicos publicando
Dizendo a cada passo que quero te ver
Minha pressa é minh'alma presa, 
É meu corpo só querendo te ter
Então, mergulho em saudades 
Bebo lembranças, me afogo
Por causa desta saudade 
Que sinto se estou longe
Da vontade que vivo sempre
Que estou perto de você

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

שלום וצדק


Ap 21.1
Amanheceu como se não houvesse passado
Nada do que estava era de novo, maquiado
Disfarçado de hoje ainda que fosse ontem
Tudo era novo, novas cores, novos olhares
Pássaros não temiam, comiam em nossas mãos
Nós não temíamos, compartilhávamos coisas
Desde o pão matinal até o sorriso mais franco
O sol era agradavelmente tempero do calor
E uma brisa suave não era o alívio, era uma cor
E vivemos então de mãos dadas, sem donos
Sem senhores, sem escravos, sem temores ou pesares
E podíamos dormir pela manhã, o trabalho era prazer
Passear noites investigando matas, nomeando vegetais
O sono não era fruto do cansaço, estávamos no descanso
Não nos cansávamos mais, caminhávamos o hoje
Sem projeções preocupadas com o amanhã
E então me deitei sem medo e quando despertei
Amanheceu como se não houvesse passado.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

OS FINS


Levei muito tempo para aprender a finalizar, concluir
Iniciava, desenvolvia e depois, livre, me arrependia
Ficava ali, parado, olhando a demora do início do fim.
Recomeçava, uma, duas, até que acabava sem mim.
E fui desvivendo, construindo para outros terminarem
E fui enxergando e me cansando dessa história sem fim
Até que por fim, meu mundo parou de tanta não conclusão
E conclui que era isto, falta de vontade de ter feito
Descobri que não era o que queria exatamente fazer
E que todo e tanto sofrimento era desnecessário em mim
E então em um piscar de olhos aprendi a findar, terminar
E depois disto, aprendi a concluir, chegar ao fim

O SILÊNCIO


Sou assim, por vezes represa, por vezes vazão
Sou caminho de curvas, claridade, escuridão
Sou calmo, sereno como tempestade de verão
Sou água correndo, águia voando atrás do avião
Sou assim, as vezes sou frio em outras paixão
Sou terra seca, suada de chuva, eu sou pé no chão
Sou sincero, se palavras machucam, peço perdão
Sendo assim, meu ninho é vazio de imensidão
Nas noites de frio, me descubro acordado
Sou só solidão

domingo, 8 de setembro de 2013

Poema para Marcos e Lena



Existem encontros que proíbem palavras exatas
Nascem e não sabemos de que mundo paralelo vem
Sente-se que é d'além, além mares, além tempos
Nas discórdias concorda-se por compreensão
Aceita-se o fato de que temos verdades hetérias
Etárias e transitórias, perdoa-se sem saber
Porque não há concentração na ofensa, na dor
São relações dominadas por admiração e amor
Nos des-cobrimos então sempre juntos, próximos
Mesmo a milhar, milhares de quilômetros distantes
E o encontro, mesmo que não físico, é constante
Uma soma de fatores, de doares de bondades
Que chamamos amor e amizade

sábado, 7 de setembro de 2013

A CALMARIA


O porto, o cais, tudo cada vez menor 
À distância, o vento e a vela velam por nós
A nau segura, deriva da junção da força
Força do vento contra a resistência da vela
E embora a vela resista, a nau cede e vai
Vai à direção do imenso mar azul
Azul, vento, vela, distância, solidão
E a vela desaba de dor pelo abandono
O vento que a impelia e que a ele, ela resistia
Cansou de empurrar, cansou de ajudar
E a nau a deriva na calmaria, bonança
E o marinheiro suspende seu olhar
Procura um sinal, uma ave, uma asa
Asa, braço, vela e leme dos pássaros
E ali, tudo parado, não há nada mais
Nem cais, nem porto, nem vento
E a vela parada, silente e caída
Com uma imagem tênue da cruz
Cruz que vela por vós e por nós
E a nau parada no altar, alto mar
Por causa da calmaria, da bonança
Ausência do vento que faz tempestade
E o marinheiro experiente deita, observa
Esperando a extrema bonança passar
E vai passar, quando o vento voltar
E passar por ali, na resistência da vela
E tudo voltar a ter vida, movimento
E o marinheiro levará sua nau
Calma e suavemente ao mais alto mar



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Poema do Malandro Ferido ( Obrigado Morro do Salgueiro )

Vou dizer pra você, não vai ser mole não
É cena de fogo cruzado, de tiros trocados
De bala perdida, zunindo pertinho do teu coração
Foi você que escolheu, desenhou teu caminho
E agora me volta falando mansinho, pisando fininho
Dizendo benzinho volta pra mim, sei não
Dá um tempo querida, estou aberto pra vida
Esqueci de dizer que uso colete pro meu coração
Se você quer, tudo bem, faz tua parte também
E não pensa que é promessa que faço
É meu jeito de ser, uma espécie de laço
Escondido no meio das folhas caídas ao chão, 
Tensionado, bem preso no topo da árvore, 
Esperando a tua pisada, cuidado com teu coração

NOSTALGIA ( Poema para Dinael )


Vivo lembrando da manga rosa
Da barreira que subíamos a brincar
Tenho na minha memória e sem imagem
A figura terna que nos fazia o sanduíche
Para depois da pelada, que se chamava futebol

Lembro da goiabeira e da goiaba branca
Das cigarras, que no pé de abacate, abacateiro
Cantavam nossos dezembros de sol e alegria
Era uma vida cheia de tios e tias, primos, primas e irmãos

Hoje me lembro com saudade e sem vontade de voltar
Dos sábados ensolarados, a brisa, o vento, o mar
Brinquei muito, sofri muito, amei de muitas formas
Lá, no passado, ficaram boas e más lembranças
Flores, frutos, pétalas, espinhos e sementes no chão

Existe em mim, algumas vezes, a dificuldade de visualisar
Lembrar semblantes e olhares, detalhes que se perderam
Que vão se esvaindo com os anos e não posso conter
Trago então estas memórias que tenho na mente e coração
E espiro a fumaça clara da saudade, cheia de gratidão

Vivi, vivo e viverei alegrias e tristezas puras e ternas
Marcadas por este tempo que já se foi.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

SINS E NÃOS




Me acostumei com nãos e com sins
Não me agradam e não me convencem
O que busco é compreensão, solução
Me acostumei com idas e vindas diversas
Com muitas brinquei, com outras chorei
De algumas fiz enterro, de outras ressurreição
Me acostumei com pétalas e espinhos
Tenho a mão ferida de tocar-me, sentir-me
Arranquei pétalas que joguei ao chão
Tapetes para heróis que pareciam vilões
E vou crescendo, me des-envolvendo
Daquilo que me impede o crescimento
Des-fazendo enganos e des-enganos
Sufocado, sufocando, sorrindo, chorando
Vou caminhando sem correr ou parar
Sem medos de versos, de sins ou de nãos
Com idas e vindas, sem crenças em ilusões
Faço verso de tudo, troco o sim pelo não.

POEMA PARA LÉO VEIGA


Amanheci na noite escura de minhas lembranças
Na manhã das minhas perdas
No anoitecer de qualquer esperança
Pus-me então a nadar para fora da praia
Na direção do mar, do oceano
E lá mergulhei em meus pesadelos
E vi Atlântida submersa, erigida em pleno mar
Nesta divisão de dimensões e concepções
Onde triunfo e fracasso se confundem
Não propriamente por dúvidas quaisquer,
Mas pelo simples fato de ignorar, desconhecer.
E por esta ignorância, pensei voltar,
Mas me lembrei de insistir, mais uma vez tentar
E do pretérito mais que perfeito lembrara de não insistir, 
Nada de insistir em sofrimento desnecessário, só tentar
Pensando novamente naquilo que realmente buscava
Me enxerguei com a facilidade dos peixes
Sem pensar, sem hesitar, resolvi nadar
Mesmo sem ser peixe e sem nada procurar.