sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Ab - SURDOS


CAPÍTULO 2





Sentei-me e fiquei pensando no ocorrido, me perguntava o porquê de tanta tensão e exagero de emoções que estavam se desenrolando e tudo por causa de um atraso, ou melhor, alguns atrasos de uma pessoa que afinal de contas é sabidamente um descansado em relação ao cumprimento de horários. Enquanto pensava, fui desperto por outra pergunta, era a moça do Café  me perguntando o que eu queria, pedi um “Saint Paul”, precisava me compensar do congestionamento que os dois haviam me causado.

Com o decorrer do dia e suas tarefas fui me esquecendo daquele turbilhão de emoções, até que, já no finalzinho da tarde, Beth me liga e nem bem me deixa falar alô, já descarrega:  “você me traiu, foi contar para o Carlos o que eu havia conversado com você pela manhã e se não bastasse, ainda deu razão a ele, o cachorro me ligou só para me dizer que você concordava com ele, que eu sou uma histérica, que não havia motivo para tanto descontrole, caramba e eu que imaginava que tinha em você um amigo de verdade, daqueles a quem se pode contar qualquer coisa, que decepção!!”. Encerrou daquele jeitinho dela, desligando o telefone sem querer ouvir uma palavra.

Fiquei evidentemente furioso, minha vontade era mandar os dois para aquele lugarzinho conhecido... rsrsrs , que é Quixeramobim, mas achei melhor assimilar. Vez por outra me vinha um surto, uma vontade de ligar para o Carlos e lhe dizer algumas coisas que quando não penso, eu penso dele; gostaram? É semelhante ao dinheiro não contabilizado do PT, que não é Caixa Dois, coisas da riqueza do relativismo. Na verdade eu sabia que ele voltaria com aquele olhar de vitorioso, meio sorrindo, meio eufórico, totalmente idiótico. Pois bem, não me apareceu naquele dia e nem no outro, acho que estava pressentindo que iria levar uma dura.

Neste interregno, olha a legenda aí gente”, quero dizer: neste intervalo, Beth havia me procurado e conversamos sobre o absurdo de ela acreditar no que havia ouvido. Conversamos sobre o ocorrido, o que lhe deu a oportunidade de me perguntar: “Você não acha que eu tenho razão?” Foi exatamente neste ponto que ela conseguiu me compreender, lhe disse claramente que não tenho competência para julgar quem tenha razão em problemas entre pessoas, que o muito que faço é ouvir e se a pessoa me pedir uma sugestão sobre o que fazer, eu respondo imediatamente que: de acordo com o que você está me contando, eu faria desta ou daquela maneira ou simplesmente responderia que questões pessoais devem ser resolvidas entre os envolvidos e que se os dois quisessem minha opinião, que conversássemos a três.

Ela me olhou com um olhar que ela usa quando não tem saída, meio “você me paga” e me perguntou:  “o que exatamente você respondeu para o Carlos, que levou-o a afirmar que você dava razão a ele?” Dei um sorriso, cocei a cabeça, que é um costume meu e lhe respondi serenamente: Beth, ele não me perguntou se eu dava razão a ele, ele me perguntou se eu havia entendido e eu respondi que sim, ele não voltou a me perguntar o que eu havia entendido ou qual o meu entendimento e opinião sobre o ocorrido, ele simplesmente me disse: “você é meu melhor amigo, sabia que iria me entender” e depois vazou querida.

Mais uma vez me olhou com aquele olhar e disparou: “não me chame de querida, detesto, odeio quando você me olha com este semblante de piedade profunda e me chama de querida. Beijou-me, agradeceu e saiu calmamente, já distante uns quatros passos, virou-se e me disse pausadamente com o mesmo olhar que me olhou:  “aquele calhorda me paga”.

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