sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Ab - SURDOS


CAPITULO 1



Beth foi ao meu encontro enfurecida. Suas palavras desordenadas demonstravam uma mágoa que não se podia medir. Minha dúvida era se aquela ira não escondia algum desejo oculto que nunca me revelara; pensei comigo, isto não é da minha conta, é melhor ficar calado...  e enquanto pensava, Carlos passou dirigindo seu carro, olhou, balançou a cabeça e seguiu, enquanto isto ela falava coisas desconexas, acabou de falar e foi embora sem sequer dizer tchau.

Carlos havia estacionado seu carro na mão inversa do fluxo dos carros, eu mesmo não havia notado, veio em minha direção e disse-me que não queria se encontrar com ela. Ficou me olhando com aquela cara de quem quer que se faça alguma pergunta, fui andando em direção ao café e ele caminhava a meu lado sem saber muito bem o que falar e eu calado, sem querer me envolver em problema dos outros.

Mas ele não agüentou, me olhando com aquele olhar de esquilo querendo pegar nozes; vocês sabem ao que me refiro, não é? È um olhar que expressa desejo de fazer alguma coisa, mas ao mesmo tempo, um medo de ser surpreendido; pois bem, disparou a matraca e começou a reclamar e a falar da intolerância da Beth, vez por outra me olhava para ver meu grau de aprovação ou reprovação em relação à sua fala, mas eu mantinha a face plástica que me é comum nestes casos.

Explicou-me detalhadamente os motivos do atraso que ocasionou aquela fúria em Beth, falou do trânsito, a fila no Banco e uma soma de tantos outros problemas que fiquei imaginando que não havia sido o mesmo Carlos que a deixara esperando por dez minutos, porque seus problemas contados somariam bem mais de 2 horas de atraso.

O interessante também é que sequer me perguntou acerca do que Beth e eu conversávamos, a sua certeza era tamanha que ele mesmo me explicava, pedia os esclarecimentos e tornava a me esclarecer sem que eu precisasse abrir a boca para pronunciar uma palavra sequer.

Ao fim da sua entusiasmada dissertação, o Mestre perguntou-me: Entendeu? Respondi laconicamente, lógico Carlos, claro que entendi. Olhou-me com gratidão e me disse: “você é meu melhor amigo; sabia que iria me entender”, nem chegou a sentar à mesa para tomarmos um café, despediu-se e sorrindo saiu comentando, “a Beth é uma exagerada”.

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