sábado, 9 de julho de 2011

TRAJETÓRIA

Vez por outra, vez em quando, quase sempre
Tenho uma crise amnésica que me invade e seduz
Esqueço alegrias, tristezas, vitórias e derrotas
Não levo muito em conta laços sociais
Revejo gabaritos, reclassifico amigos e coisas assim
Vez em quando, quase sempre depois da dor
Uma ou outra vez depois de sucessos
Vejo anotações de pessoas que me cercam
Transfiro alguns para o livro da gratidão
Porque de ingrato, nem Deuss gosta
Vou então me des-cobrindo em vida
Através de vidas que vivi aqui mesmo
Neste progressivamente velho corpo
Que tende ao aprendizado disfarçado
De alegrias, tristezas, vitórias e derrotas
E me vejo a caminho da velha estação
Sem ao certo saber quantas faltam
Tampouco em quantas delas vou saltar
E aprender e brincar coisas simples
Sonhar sonhos que um dia vão passar

OS DOIS

Aquela rua escura por onde passava Nicanor, era a mesma rua clara por onde passava Florisbela; ela, apressada, ia e vinha com compras nas mãos, olhos esbugalhados, semblante preocupado, cabeça pensando em bifes, saladas, roupas para passar, a cozinha e seus interminaveis afazeres; ele, tanto no ir quanto no vir, em seus passos serenos cumpria uma rotina que culminava naquilo que torna nossas manhãs mais agradáveis, o pão quentinho.


Florisbela e Nicanor se encontravam duas vezes ao dia; uma delas, bem cedinho, quando na contra mão da rua, então em penunbra matinal, ela ia ao trabalho e ele voltava dele; o outro encontro, ah! coisa excepcional, era quando a penumbra noturna chegava e os dois se encontravam em casa, para horas de amor, ele, depois de dormir e ela, antes de deitar.

Labor

No rosto escorre rósea gota pelo sério sorriso do dever cumprido

O suor com sangue desperta na amada uma admiração da dor

Cativa um respeito desnecessário cultivado pelo labor quase insano

E a mão que seca umedecendo a seca deste caminhar árduo

Escorre-lhe pelo corpo e desperta uma força ainda maior

Que irá brotar em uma noite de amor