domingo, 24 de setembro de 2017

TIJUCANO



Vivi rodeado de Desembargadores e Generais
Mas por alguma razão cósmica, os meus passos
De forma ainda meio infantil viveram o Bom Pastor
Caminhando ao redor de Salgueiros os mais diversos
Alguns de versos, outros de drogas e de um bom samba

Eram dias de paz, as guerras mais cruéis eram interiores
Travadas por rígidos valores familiares e religiosos
Forrados pela caudalosa mudança social dos anos 60
Os conflitos existentes eram entre o Rock e a MPB
Emilinha e Marlene disputavam o reinado do rádio

Lembrando de tudo isto, não sinto falta ou saudade
É memória restada em um canto limitado e silente
Que vez ou outra me vem e depois vai embora
Levando a cada ano que passa, mais dias para voltar
Mas hoje a memória amanheceu em mim e escrevi.

sábado, 23 de setembro de 2017

SIMPLES



Fartas fadas, fantasias, ilusões
Fardas falsas, infantaria, convulsão
Nada, que boia  por aqui, não tem não
Não tem nada, não tem eira, não tem beira
O que tem é fala falsa, fartas de ilusão
Tem também um tanto de farda falsa e sem jargão
Fadas, borboletas, lagartas, bruxas e decepção
Mas como cada um constrói seu mundo neste mundão
Quero o meu sem fada, sem farda, sem borboletas
Quero um mundo pequeno, cotidianamente simples
Sem necessidade do desnecessário luxo sem sabor
Basta-me o sabor, o saber, cores primárias, preto e branco
E vá lá, que seja este meu luxo, um só tantinho de amor

sábado, 5 de agosto de 2017

UM RAPAZ CHAMADO LIBERDADE


Existe um causo, que causa certo espanto,
certa preocupação
É o do menino que andava solto,
sempre preso pela liberdade
Virava e mexia, o menino sumia,
batia em retirada e voava
Nada importava, nada continha
o menino que amava sair e ir
Uns que o conheciam,
diziam que com certeza seria a idade
Sim, a idade, aquela austera senhora o conteria,
ela seria seu jeito
Mas o tempo foi passando
e a idade que era a esperança, falhou
Disseram mesmo, que o tal menino,
agora rapaz, desesperou-a
Enganando-a com aquela alegria contagiante
que sempre o remoçava
Desiludidos, os carcereiros atônitos,
tiveram uma genial ideia
Apresentaram-lhe uma bela moça,
criada para cuidar do lar
Prendada e "prendida" nas coisas de casa;
e de ouvidos atentos
Ela era em si uma viagem,
uma terra encantada a ser conhecida
E o menino, que de rapaz passara
e homem se tornou, encantou-se
E encantado naquele cantinho
que chamam de lar, o menino ficou
E ela ouvinte, o encantava com suas 
perguntas bem feitas e gentis
E ele passava horas a fio, no calor ou no frio,
a lhe contar histórias
Todas cheias de lugares novos,
pessoas diferentes, secas e enchentes
E ela, já mulher e agora prenha,
continuava a ouvir, sorrir e perguntar
E aquele homem de diminuídos cabelos,
com um grisalho surgindo
Continuava com aquele mesmo olhar menino,
sorriso farto e contente
E ela na sala, com um menino
mamando em seu colo e a pequena ao chão
Ouviam todos, aquelas belas e lindas histórias
que pareciam não ter fim
E em um dia simples, que parecia
ser igual a todos os outros dias
Quando todos acostumados com as histórias,
se encaminharam para lá
Nada encontraram, não havia nem
a menina transformada em moça
Nem a doce senhora, a bela conhecedora
de todos os segredos do lar
Não estava a menina já moça,
nem o menino peralta que vivia a pular
Disseram alguns, sem muita certeza,
que saíram em grande veículo
Todos estavam sorrindo e contentes,
foram viver e fazer novas histórias
Disseram que um dia voltam,
trazendo novidades para contar

domingo, 23 de julho de 2017

TRISTE BRASIL


O rio corre desmoronando suas margens
Corre desordenado, discorde, disforme
A mata pela morte, se esvai nas águas sujas
Águas também quase mortas, amorfa, coliforme
Vida abundante no lugar errado, descaso

Enquanto a miséria avança incontinente
Os governantes incontinentes subtraem
Não só valores financeiros, monetários
Subtraem valores morais, coisas banais
Aflorando inversões em muitas versões

Seringas nas esquinas caídas ao chão
Hospitais parando, diversos por falta delas
Papeis em toneladas ao chão, propagam
Escancaram o mercantilismo reinante
E escolas à mingua, sem nenhum papel

Não há papel para que se escreva palavra
Falta papel para que se limpem ao vaso
Não existe quem assuma um papel decente
Tudo é uma questão de mera indicação
O que é indício, indicação da incapacitação

E se havia alguma segurança oficial
A notícia oficial é que não há segurança
Não há gasolina para patrulhar ruas
Não há critérios algum de detenção
Prendem donos de casa, libertam o ladrão

BORA LÁ



Espera!! me disse o medo,
com seu falso perfil de cuidado
É muito arriscado,
antes de qualquer coisa ou passo, certifique-se
Tenhas certezas muitas, não uma só,
nunca vá pela esperança
Insistiu dizendo para que eu não fosse,
"Olha !? É muito perigoso".

Mas eu fui, este é meu jeito de ser,
não respeito demais ao medo
Fui com cuidado, certifiquei-me dos riscos
e me enchi de esperança
Não haviam problemas no caminho,
só os que eu mesmo criei
Ao chegar, a vida me disse,
"viver não admite rascunho".

Fizeste bem em vir sem demora,
temos coisas a fazer sem medo
Tens como missão, abraçar a alguns,
sorrir e chorar com outros
Tem também bastante trabalho,
e aqui, a saúde não dá garantia
O tempo não para e nem te empurra;
cuide com carinho da vida e dispense o "cuidado"

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A AUSÊNCIA - Sentimentos de mortes


A lembrança de uma imagem vazia
Que remexe o vago pela vaga que ficou
E como vaga de uma onda de mar bravio
Anuncia o arrasto que tudo arrasta para dentro
Fazendo com que uma inundação de coisas
De fatos, palavras, gestos e silêncios invasores
Nos desarrumem trincheiras e fronteiras

É a vida trazendo em desordem e de uma só vez
Tudo aquilo que se pensava perdido e destroçado
E os mesmos traços e lágrimas confusas, difusas
De fases, de frases da infância à velhice adulta
Adolescentemente compreendidas em dores
Atenuadas por palavras e favores vãos que se vão
Trazendo ainda na volta, tudo aquilo que voltou

E então com a mesma sorte de sempre
A morte que nos leva o corpo presente
Nos traz de presente, tantas lembranças
Tantas lambanças, tantas tontas verdades de amor
Daquele mesmo amor que nunca foi só palavra
Porque tão só nos deixará, sem nos deixar só
Posto que nos deixará sete lágrimas e uma canção

quinta-feira, 20 de julho de 2017

O MUNDO EM CINZA E PRETO


Na solidão, distante de tudo e todos
Na multidão, diante do luto e toldos
Todos, de múltiplas formas sentimos
Sentimos coisas inversas ao tudo
Sentimos mais, menos, mais ou menos
Sentamos, sabedores da espera
Da espera necessária que vem do fundo
Da espera complicada de estarmos
De estarmos diante e distante
Com medo e coragem, e de passagem
Neste mundo de muitos e poucos
De sãos e loucos, de claros e escuros
Mundo de ilusões e semântica
Quântica, quântico, polícia e ladrão
Rua acima, ladeira abaixo, porta sem capacho