sábado, 5 de agosto de 2017

UM RAPAZ CHAMADO LIBERDADE


Existe um causo, que causa certo espanto,
certa preocupação
É o do menino que andava solto,
sempre preso pela liberdade
Virava e mexia, o menino sumia,
batia em retirada e voava
Nada importava, nada continha
o menino que amava sair e ir
Uns que o conheciam,
diziam que com certeza seria a idade
Sim, a idade, aquela austera senhora o conteria,
ela seria seu jeito
Mas o tempo foi passando
e a idade que era a esperança, falhou
Disseram mesmo, que o tal menino,
agora rapaz, desesperou-a
Enganando-a com aquela alegria contagiante
que sempre o remoçava
Desiludidos, os carcereiros atônitos,
tiveram uma genial ideia
Apresentaram-lhe uma bela moça,
criada para cuidar do lar
Prendada e "prendida" nas coisas de casa;
e de ouvidos atentos
Ela era em si uma viagem,
uma terra encantada a ser conhecida
E o menino, que de rapaz passara
e homem se tornou, encantou-se
E encantado naquele cantinho
que chamam de lar, o menino ficou
E ela ouvinte, o encantava com suas 
perguntas bem feitas e gentis
E ele passava horas a fio, no calor ou no frio,
a lhe contar histórias
Todas cheias de lugares novos,
pessoas diferentes, secas e enchentes
E ela, já mulher e agora prenha,
continuava a ouvir, sorrir e perguntar
E aquele homem de diminuídos cabelos,
com um grisalho surgindo
Continuava com aquele mesmo olhar menino,
sorriso farto e contente
E ela na sala, com um menino
mamando em seu colo e a pequena ao chão
Ouviam todos, aquelas belas e lindas histórias
que pareciam não ter fim
E em um dia simples, que parecia
ser igual a todos os outros dias
Quando todos acostumados com as histórias,
se encaminharam para lá
Nada encontraram, não havia nem
a menina transformada em moça
Nem a doce senhora, a bela conhecedora
de todos os segredos do lar
Não estava a menina já moça,
nem o menino peralta que vivia a pular
Disseram alguns, sem muita certeza,
que saíram em grande veículo
Todos estavam sorrindo e contentes,
foram viver e fazer novas histórias
Disseram que um dia voltam,
trazendo novidades para contar

domingo, 23 de julho de 2017

TRISTE BRASIL


O rio corre desmoronando suas margens
Corre desordenado, discorde, disforme
A mata pela morte, se esvai nas águas sujas
Águas também quase mortas, amorfa, coliforme
Vida abundante no lugar errado, descaso

Enquanto a miséria avança incontinente
Os governantes incontinentes subtraem
Não só valores financeiros, monetários
Subtraem valores morais, coisas banais
Aflorando inversões em muitas versões

Seringas nas esquinas caídas ao chão
Hospitais parando, diversos por falta delas
Papeis em toneladas ao chão, propagam
Escancaram o mercantilismo reinante
E escolas à mingua, sem nenhum papel

Não há papel para que se escreva palavra
Falta papel para que se limpem ao vaso
Não existe quem assuma um papel decente
Tudo é uma questão de mera indicação
O que é indício, indicação da incapacitação

E se havia alguma segurança oficial
A notícia oficial é que não há segurança
Não há gasolina para patrulhar ruas
Não há critérios algum de detenção
Prendem donos de casa, libertam o ladrão

BORA LÁ



Espera!! me disse o medo,
com seu falso perfil de cuidado
É muito arriscado,
antes de qualquer coisa ou passo, certifique-se
Tenhas certezas muitas, não uma só,
nunca vá pela esperança
Insistiu dizendo para que eu não fosse,
"Olha !? É muito perigoso".

Mas eu fui, este é meu jeito de ser,
não respeito demais ao medo
Fui com cuidado, certifiquei-me dos riscos
e me enchi de esperança
Não haviam problemas no caminho,
só os que eu mesmo criei
Ao chegar, a vida me disse,
"viver não admite rascunho".

Fizeste bem em vir sem demora,
temos coisas a fazer sem medo
Tens como missão, abraçar a alguns,
sorrir e chorar com outros
Tem também bastante trabalho,
e aqui, a saúde não dá garantia
O tempo não para e nem te empurra;
cuide com carinho da vida e dispense o "cuidado"

sexta-feira, 21 de julho de 2017

A AUSÊNCIA - Sentimentos de mortes


A lembrança de uma imagem vazia
Que remexe o vago pela vaga que ficou
E como vaga de uma onda de mar bravio
Anuncia o arrasto que tudo arrasta para dentro
Fazendo com que uma inundação de coisas
De fatos, palavras, gestos e silêncios invasores
Nos desarrumem trincheiras e fronteiras

É a vida trazendo em desordem e de uma só vez
Tudo aquilo que se pensava perdido e destroçado
E os mesmos traços e lágrimas confusas, difusas
De fases, de frases da infância à velhice adulta
Adolescentemente compreendidas em dores
Atenuadas por palavras e favores vãos que se vão
Trazendo ainda na volta, tudo aquilo que voltou

E então com a mesma sorte de sempre
A morte que nos leva o corpo presente
Nos traz de presente, tantas lembranças
Tantas lambanças, tantas tontas verdades de amor
Daquele mesmo amor que nunca foi só palavra
Porque tão só nos deixará, sem nos deixar só
Posto que nos deixará sete lágrimas e uma canção

quinta-feira, 20 de julho de 2017

O MUNDO EM CINZA E PRETO


Na solidão, distante de tudo e todos
Na multidão, diante do luto e toldos
Todos, de múltiplas formas sentimos
Sentimos coisas inversas ao tudo
Sentimos mais, menos, mais ou menos
Sentamos, sabedores da espera
Da espera necessária que vem do fundo
Da espera complicada de estarmos
De estarmos diante e distante
Com medo e coragem, e de passagem
Neste mundo de muitos e poucos
De sãos e loucos, de claros e escuros
Mundo de ilusões e semântica
Quântica, quântico, polícia e ladrão
Rua acima, ladeira abaixo, porta sem capacho

SER AVÔ


Exulta, serás avô na vida que te resta.
Ensine as coisas importantes, coisas de significados eternos.
Ensine a brincar de esconde-esconde,
não é preciso esconder, é só brincar.
Ensine a pular corda, jogar água um no outro,
cuidado, sem interesse de encharcar.
Escave, faça poças de água, que serão lagoas.
Faça caretas sem ser por birra ou malcriação, só palhaçada.
Aprenda o valor de um abraço bem forte,
e se ela cair, ajude-a sem assusta-la.
Nunca negue um abraço,
mesmo quando ela estiver fazendo birra.
Pois daqui a alguns anos,
os abraços diminuirão e farão muita falta.
Fale sempre deste carinho e amor que você tem por ela,
Fale com sinceridade, narre os detalhes do encanto
Não só conte as histórias, mas viva-as com ela,
deixe que a imaginação tenha corpo
Não brigue por bobagens,
paredes podem ser pintadas novamente,
Copos e jarros quebram mesmo, e serão substituídos.
A cara feia, o grito, a reclamação e os castigos,
isto ficará, nunca se esquece.
Deixe, que mais tarde iremos arrumar
Iremos lavar o chão com bala pisada
Enquanto você se aborrece e limpa,
ela sai, se afasta e cresce.
Ela não precisa de tantas coisas materiais. 
Trabalhe só o necessário e ame mais.
Menos presente e mais presença!
E, acima de tudo, ore e peça a Deus sabedoria.
Pois o tempo nunca é o suficiente para se ser avô 
E ela está crescendo e mesmo que te ame,
irá preferir os amigos. Pois ela deixará de ser criança
E então, já não verá tanta graça em nós, seus avós
Sê avô enquanto puder participar

quarta-feira, 5 de julho de 2017

PALAVRAS


Ninguém é tudo que pensa ser;
nem bom, nem mau, nem louco ou são
Por vezes somos só pó e quem sabe,
pouco pó, pó puro e sem sabor
Um outro água, pouca água, água derramada,
vai saber? Água contaminada.
Alguns são básicos, outros são ácidos,
alguns falantes, outros calados
Ninguém é tudo o que pode ser,
seja capaz ou incapaz, ainda pode ser mais

De todos se retirou, se retira ou
se retirará algum proveito, tudo se move
Tudo se remove, não importa o tempo,
muito ou pouco, longo ou breve
De alguma forma que nosso ignorar desconhece,
tudo tem um valor sagrado
Maculado ou não pelos que julgam poder julgar,
tudo é útil e se utilizará
Tudo pode ser um quase nada,
nada por vezes é quase tudo, tudo ou nada tudo

O que se sabe e muitos dizem,
é que se juntarmos pó e água, então é massa
Se adicionarmos compreensão
e a terna capacidade de criar, será construção
Serão tijolos, paredes, de muitas e poli dimensões,
serão casinhas, serão mansões
Tudo de um pó, de uma água, que unidas,
entregues a um propósito, transpassam
Transcendem à compreensão, permitem-se,
projetam-se ao alvo do existir da própria criação